Caminhos Literários leva jovens do socioeducativo à produção de podcast sobre hip hop
Pela primeira vez, quatro jovens em cumprimento de medida socioeducativa em uma unidade da Comarca de João Pessoa assumiram microfones e câmeras para conduzir uma entrevista sobre algo que faz parte da vida de cada um deles: o hip hop. Essa experiência aconteceu na tarde desta quarta-feira (1º) na Escola Superior da Magistratura (Esma).
A atividade ocorreu dentro da programação do evento Caminhos Literários, iniciado ontem na Paraíba, com o apoio do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF - área socioeducativa) do TJPB.
O ‘Caminhos Literários no Socioeducativo: pelo direito à cultura’ é promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e este ano, será realizado nacionalmente nos dias 2, 3, 7 e 8 de julho, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), no âmbito do Programa Fazendo Justiça.
Os participantes do podcast relataram que, apesar do nervosismo inicial e do desafio de lidar com as câmeras, a experiência foi gratificante, revelou a capacidade e deu lugar a um sentimento de realização.
“Eu não sabia que conseguiria conduzir uma entrevista, mas agora estou vendo que sou capaz”, afirmou João*, entusiasmado com a experiência.
“O mais difícil foi a vergonha, mas depois me senti bem. Gostei”, contou José*.
Zeca* também destacou o processo de superação. “Senti muito nervosismo para fazer esse trabalho, mas fui ganhando confiança, me soltando e conseguimos”.
Questionado se aceitaria repetir a experiência em novos episódios, o quarto participante respondeu sem hesitar: “Com certeza. O que a gente mais pensa é em nunca desistir”.
A entrevistada do podcast foi Letícia Rodrigues, mestra em Teatro e Hip Hop, que compartilhou sua trajetória e falou sobre a potência do hip hop como dança, música, arte e expressão corporal.
Letícia, que já atuou como oficineira em projetos de teatro na unidade socioeducativa, também auxiliou os adolescentes na elaboração do roteiro e na condução da entrevista.
"Por meio do teatro e do hip hop, trabalhamos postura, oratória e vícios de linguagem. Acreditamos na integração por meio da arte, da cultura e da educação. Vemos a transformação acontecer à medida que eles adquirem conhecimento e autoestima. É um processo libertador", destacou.
Cultura como ferramenta de transformação
O resultado da atividade foi celebrado pela coordenadora do GMF na área socioeducativa, juíza Antonieta Maroja, que também é diretora adjunta da Esma. Para a magistrada, a oferta de atividades culturais, educacionais e profissionalizantes transforma a vida dos jovens, permitindo que desenvolvam potenciais que antes eram reprimidos pela falta de oportunidades.
“No sistema socioeducativo, eles estudam e têm aulas variadas, a exemplo do teatro e de cursos profissionalizantes. A partir dessas abordagens pedagógicas diversas, conseguimos ver um resultado prático, pois hoje, eles mesmos falaram em transformação, então isso é o coroamento de um trabalho amplo”, disse.
A assistente técnica da área socioeducativa do Programa Fazendo Justiça na Paraíba, Olívia Almeida, ressaltou que o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) já reconhece a cultura como um dos pilares da socioeducação e que a iniciativa busca fortalecer a compreensão de que o direito à cultura passa pelo acesso aos equipamentos e às políticas culturais existentes nos territórios onde esses adolescentes vivem.
“Aqui, estamos materializando essa previsão da garantia de acesso à cultura pelos adolescentes que estão cumprindo medida socioeducativa. O Caminhos Literários, que se encontra na quinta edição, vai ao encontro dessa política, trazendo à tona o direito à cultura, além da experiência de profissionais e de adolescentes das unidades socioeducativas de todos os estados do Brasil”, explicou.
A coordenadora do Eixo Diversidade (Étnico-racial, Gênero e Orientação Sexual) da Fundação de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente ‘Alice de Almeida’ (Fundac), Andreina Gama Gomes, também acompanhou a gravação e destacou o caráter formativo da atividade.
"Esse trabalho, desenvolvido por meio do teatro em parceria com Letícia, também utiliza a representatividade de mulheres travestis para promover a desconstrução de preconceitos e fortalecer o diálogo com os jovens atendidos pela instituição", afirmou.
Programação Caminhos Literários - nacional
O evento será realizado em formato híbrido, com o hip hop no centro das atividades. A abertura oficial, no dia 2 de julho, será transmitida ao vivo pelo canal do CNJ no YouTube e contará com a participação do ministro Edson Fachin, do CNJ, e da ministra Janine Mello, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
Na sequência, será feita a Conferência Magna: Do Beat à Palavra, com a participação de Edi Rock (Racionais MC's/SP), X (Câmbio Negro/DF), Tuca Lélis (Realidade Cruel/SP) e Kakaw Tamoyos, grafiteira indígena de Minas Gerais.
Voltada exclusivamente para as unidades socioeducativas (adolescentes e servidores), a programação virtual conta com painéis, videocasts, bate-papo com MCs, mostras culturais organizadas pelas unidades socioeducativas, clipes, oficina de grafite, entre outras atividades.
Em João Pessoa, a programação presencial continuará nos dias 3 e 6 de julho, contemplando adolescentes atendidos pelas unidades socioeducativas da Capital: Centro Educacional do Jovem (CEJ), Centro de Atendimento Socioeducativo Rita Gadelha e Centro Socioeducativo Edson Mota (CSE).
* nomes fictícios utilizados para preservar os adolescentes
Por Gabriela Parente

