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Publicado em: 13/08/2008 - 12h00 Tags: Geral, Legado

Prefácio escrito pelo Desembargador-Presidente Antônio de Pádua para o livro “Lições do Tempo”, do Desembargador Di Lorenzo Serpa

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PREFÁCIO ESCRITO <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" /?>EM MAIO DE 2008, PELO DESEMBARGADOR-PRESIDENTE ANTÔNIO DE PÁDUA LIMA MONTENEGRO, DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DA PARAÍBA, PARA O LIVRO LIÇÕES DO TEMPO, DE AUTORIA DO DESEMBARGADOR JOSÉ DI LORENZO SERPA E LANÇADO EM 13 DE AGOSTO DESTE MESMO ANO, NO SALÃO NOBRE DO PALÁCIO DA JUSTIÇA, EM JOÃO PESSOA, PB


 


 


 


Não sou escritor, muito menos poeta. Faltam-me “engenho e arte”. Por isso, não sou a pessoa mais indicada para escrever o prefácio deste livro do Desembargador José Di Lorenzo Serpa. Não posso negar, entretanto, que as professoras do Grupo Escolar Vidal de Negreiros, de Cuité, os mestres do Seminário e do Liceu Paraibano despertaram em mim o hábito de ler e o gosto pela arte de bem escrever, a preocupação com a beleza da forma na expressão do pensamento, a obediência às regras da gramática portuguesa, sempre adotadas nas minhas sentenças e acórdãos, redigidos ao longo de quarenta e um anos de judicatura. Sou freqüentador assíduo de livrarias, adquirindo quase todo sábado um livro novo sobre os mais variados temas.    


 


Talvez por isso, distinguiu-me o dileto amigo e colega com a honrosa incumbência de prefaciar seu livro Lições do Tempo, composto de duas partes, escrito em linguagem simples e escorreita. Na primeira, Eu e os netos, com quarenta e seis capítulos, desfilam o próprio Serpa, assumidamente um vovô coruja, Rosário, a esposa, e os netos Ana Beatriz (Bibia), Ana Lívia (Lili), Ana Vitória (Vivi), Amanda (Mandinha), Luana (Lulu) e Caio.Na segunda, Eu e o cotidiano, com vinte e três capítulos, discorre sobre fatos e pessoas que, de uma forma ou de outra, o impressionaram no dia-a-dia de suas leituras.


 


O Desembargador Serpa é meu velho conhecido. Fomos contemporâneos nos bons tempos da Faculdade de Direito da Praça João Pessoa. Optei pela Magistratura e ele pelo Ministério Público. Quarenta anos depois, reencontramo-nos como Desembargadores do Tribunal de Justiça, estreitando-se aí, mais ainda, nossos laços de amizade fraterna e cordial.  


 


Ao longo dos sessenta e nove capítulos que compõem as Lições do Tempo, Serpa se revela o homem fortemente inclinado para a literatura, portador de vasto cabedal de cultura geral e humanística. Com desenvoltura e naturalidade, se refere a Homero, o educador da Grécia, autor de a Ilíada e da Odisséia; a Heródoto, o Pai da História; a Demóstenes, o mais brilhante orador da Grécia antiga; a Marco Túlio Cícero, o genial orador, filósofo, escritor, advogado e político romano; a Miguel de Cervantes, o gênio espanhol que escreveu Dom Quixote de la Mancha; a René Descartes e seu Discurso sobre o Método, onde faz a afirmação axiomática cogito ergo sum, ou seja, eu penso, logo existo; a Tchaikovski e seu ballet clássico O Lago dos Cisnes; a Fustel de Coulanges, o historiador francês, autor de A Cidade Antiga, tratado sobre a civilização greco-romana; a Fernando Pessoa, o extraordinário vate português; ao imortal escritor e poeta brasileiro considerado por Harold Bloom como o maior escritor negro de todos os tempos; a Érico Veríssimo, o escritor gaúcho de Olhai os Lírios do Campo, e tantos e tantos outros.     


        


O estilo é u’a maneira muito pessoal com que o escritor maneja as palavras e a linguagem literária, patenteado sua capacidade e criatividade na formulação de um texto. O escritor, matemático e naturalista francês Georges de Buffon afirmou, com muita propriedade, que o estilo é o homem, significando dizer que cada escritor tem seu estilo próprio, peculiar, personalíssimo, revelador da própria individualidade. Monteiro Lobato afirmou que o estilo é a fisionomia da obra de arte.


        


O estilo inconfundível é, portanto, o retrato, em corpo inteiro, do Desembargador Serpa. Simplicidade, clareza, comedimento, serenidade, mansidão, discrição, brandura, bonomia, inteligibilidade, bom humor, ironia fina, sem resvalos para futilidades, devaneios delirantes, vôos condoreiros, ou apelações à vulgaridade, bem o caracterizam e identificam como cidadão exemplar, talentoso escritor e Desembargador digníssimo. Lições do Tempo é, sem dúvida, uma radiografia muito nítida de sua personalidade cativante.


 


Com habilidade e sutileza admiráveis, o Desembargador Serpa aproveita as conversas com os netos para transmitir-lhes, de forma simples e direta, lições de História, Filosofia, Literatura, Música, Cinema, Pintura. Êmulo de Monteiro Lobato, faz-nos relembrar os Serões de Dona Benta, no qual o insigne escritor paulista relata a forma engenhosa encontrada pela velha senhora para satisfazer a curiosidade de Pedrinho e Narizinho a respeito de Física e Astronomia.  


 


Não tenho dúvida de que Ana Beatriz, tratada carinhosamente como Bibia, nada fica a dever à figura simpática de Narizinho. Pedrinho está exuberantemente revivido em Caio, o “brasiliense” peralta que, na Assembléia Legislativa, desinibido e empolgado, quebrou o protocolo e, a plenos pulmões, gritou “Vovô !!!”, quando viu o “velho” Serpa, hierático, no alto da tribuna parlamentar, discursar agradecendo a outorga das Medalhas Epitácio Pessoa e Augusto dos Anjos, feliz iniciativa do Deputado João Gonçalves. Foi, sem dúvida, o aplauso mais expressivo, sincero, espontâneo, comovente e inolvidável que recebeu o nosso Desembargador naquela sessão solene.


 


Os netos do Desembargador Serpa não se inibem em conversar, gracejar e brincar com o avô. Caio pretendeu ensinar-lhe a andar de patinete. Ana Lívia (Lili) perguntou-lhe por que a lua não cai na cabeça da gente, e ele respondeu, em tom paternal: porque a lua tem juízo.


 


Fortemente gripado, o vovô Serpa foi advertido por Ana Beatriz (Bibia) de que ele não tomara a vacina do idoso. Tal observação deixou-o chocado e o fez cair na realidade, percebendo que, de fato, avançara na idade. Aproveitou a deixa para fazer digressões acerca da arte de envelhecer. Resignado com a irreversibilidade do tempo implacável concluiu, bem humorado: Temos de nos adaptar à nova idade, considerando que minha esposa Rosário, que me chamava de meu bem e meu amor, ontem me disse que tinha colocado para esfriar a papinha do seu velho. Conclui seu livro com o capítulo Cícero e o idoso, lembrando que Marco Túlio Cícero, escrevendo o livro Saber Envelhecer, afirmou que a velhice nos traz sabedoria, clarividência e discernimento.  Palavras que consolam...


 


Saboroso é o capítulo “Vovô, os netos e a troca”. Circunspecto, o austero Desembargador saiu do quarto calçando, sem se aperceber, as sandálias da esposa, Rosário. A turminha não perdoou o escorrego do “velhinho” e, gozando com ele, apontou-lhe os pés e cantou em coro: Nunca vi rastro de cobra nem couro de lobisomem. Menino, eu sou é homem, Sou homem com H...


 


Confessadamente desafinado, o avô solfejava a guarânia Saudade, palavra triste, quando Ana Vitória (Vivi), manifestando certo enfado, lhe disse: começaram as músicas do vovô, as músicas do tempo de D. Pedro e do tempo do ronca. Isto bastou para que ele fizesse algumas reflexões sobre a saudade, palavra sem sinônimo na língua portuguesa, por ele definida como um sentimento interior, intenso e profundo que sentimos das pessoas, dos animais e das coisas.


 


No capítulo em que se refere a Dick Farney, cujo nome verdadeiro era Farnésio Dutra e Silva, Serpinha, como lhe tratam os amigos mais íntimos, lembra a belíssima canção A saudade mata a gente, gravada pelo inolvidável do cantor brasileiro, dela pinçando este verso: Fiz meu rancho na beira do rio / Meu amor foi comigo morar... Foi o pretexto para repassar à neta Bibia os nomes dos grandes rios da terra, Tigre, Eufrates, Nilo, Ganges, Jordão, Tamisa, Mississipi, Tietê, e até o nosso Paraíba.


 


Em mim, o efeito foi igual e contrário. A lembrança de Dick Farney fez emergir, como um turbilhão, do fundo da memória adormecida, a lembrança das tardes frias, crepusculares e invernosas de Cuité, onde nasci e vivi até os treze anos, nas quais, após a Ave Maria de Gounod (só no Seminário vim saber de quem se tratava...), a difusora do Armazém Santa Teresinha, com um amplificador de som instalado na Praça Rio Branco, hoje Prefeito Cláudio Furtado, da qual o meu tio, Benedito Lima Júnior, depois Coronel Comandante da Polícia Militar do Estado, foi locutor, começava um programa de “músicas selecionadas” e a cidade toda ouvia a canção belíssima A saudade mata a gente, na voz inigualável daquele cantor, despertando nos ouvintes um sentimento indefinível de melancolia...


 


Vale a pena transcrever o texto integral da belíssima canção de Antônio Almeida e João de Barro: Fiz meu rancho na beira do rio / Meu amor foi comigo morar. / E nas redes nas noites de frio, / meu bem me abraçava pra me agasalhar. // Mas agora, meu Deus, vou embora, / vou-me embora e não sei se vou voltar. / A saudade nas noites de frio / em meu peito vazio virá se aninhar. A saudade é dor pungente, morena, / a saudade mata a gente, morena. / A saudade é dor pungente, morena, / a saudade mata a gente /.  


 


O Desembargador Serpa se revela, enfim, exímio cronista do quotidiano. Em determinados momentos, como em Passarinho e Vagalume, deixa escapar sua veia poética e, sem o sentir, elabora dois belos poemas em prosa. Em seu livro Poesias de sempre, o editor, Professor Francisco Pontes da Silva, escreveu no “prefácil”: sua poesia tem a voz e a forma da contemporaneidade. Não precisa de apresentação. Sua poesia é.”


 


Resta-me, afinal, congratular-me com o estimado amigo e colega pela belíssima obra que está a publicar através das Edições Linha d’Água, criação arrojada de Heitor Cabral e Pontes da Silva, e agradecer-lhe a oportunidade que me ofereceu de prefaciá-lo. Com certeza, além da emoção estética que despertará a leitura, encontrarão os leitores em as Lições do Tempo um texto bem construído, de fácil assimilação, e aprenderão também lições belíssimas que tornarão menos acre a caminhada pelas estradas da vida.   


 


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